Ponto de vista": A DGS/PIDE e a sublevação militar de 25 de Abril de 1974. (Semimórias).

 A DGS/PIDE e a sublevação militar de 25 de Abril de 1974.  (Semimórias).


O recente falecimento do Coronel Diniz de Almeida trouxe à minha memória a reunião em que em sua casa, na Rua Filipe da Mata, no princípio de Outubro de 1973, conheci diversos oficiais do Exército que viriam a ter preponderantes intervenções na vida militar e política - entre os quais Hugo dos Santos, Ramalho Eanes, e Almeida Bruno, Otelo S.Carvalho, Vasco  Lourenço, e Vítor Alves - e que demonstravam profunda preocupação pela situação do nosso País.
À DGS/PIDE não lhe escapariam por certo as reuniões de oficiais que ocorriam desde o início daquele ano e nomeadamente após a tentativa de realização de um congresso de combatentes, pois a colaboração que em África mantinha com as forças militares, nomeadamente do Exército, provavelmente permitiria tal conhecimento, sendo previsível que estivessem a par dos contactos intensos que a nível - principalmente - de Capitães se desenvolviam, embora até ao final de Dezembro sem objectivos ainda bem definidos.
Pressentiria provavelmente que a hipótese de um golpe militar não seria de excluir, dada uma já visível pusilanimidade de Marcelo Caetano e o aumento da visibilidade do General António de Spínola, na sequência da sua nomeação para um novo cargo, então criado de propósito para tal, de Vice-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.
Conheceria por certo a existência de contactos informais entre o General Spínola e diversos oficiais, o mesmo sucedendo com o General Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas - porém com outros oficiais.
A hipótese de golpe militar viria a ganhar mais consistência depois da publicação do livro do general Spínola sobre o futuro de Portugal, autorizada pelo General Costa Gomes, e pelo próprio Presidente do Conselho de Ministros, porém numa postura de cedência - o que implicaria que o eventual golpe correspondesse a uma maior intervenção dos militares na definição da política nacional, situação tacitamente aceite por Marcelo Caetano ao sugerir àqueles dois Generais que, face ao citado livro, propusessem ao Presidente da República que o demitisse e que os nomeasse para os cargos de Presidente do Conselho de Ministros e de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.
Sugestão que não foi seguida - algo cujas razões nenhum deles viria a explicar - mantendo ambos contactos informais com alguma oficialidade.
A reunião em 5 de Março de 1974 de 170 oficiais do Exército, com a presença de observadores da Marinha e da Força Aérea, em que foram aprovadas linhas políticas de intervenção visando o estabelecimento de um Estado de Direito Democrático, preparadas em reunião prévia de oficiais dos 3 Ramos a um nível já de oficiais superiores, terminou com a designação dos citados dois generais para encabeçarem - com Costa Gomes à frente, por larga margem - um movimento (então de contornos ainda indefinidos).
Evento que por certo mais terá aprofundado a convicção na DGS/PIDE de ser inevitável um golpe militar.
Marcelo Caetano, porém, reagiu e convocou os Almirantes e Generais para uma sessão demonstrativa do seu apoio ao Governo, à qual não comparecem os dois Generais, bem como o Almirante Bagulho - tendo de imediato sido  demitidos dos seus cargos.
Acontece então a tentativa de golpe militar de 16 de Março, conduzida de modo inábil e sem enquadramento por qualquer dos dois Generais,  cujo fracasso terá sido interpretado pela DGS/PIDE como demonstração da incapacidade dos oficiais subalternos e daqueles Generais no que respeitava à organização e execução de um golpe militar.
Porém, mantendo embora a postura que tinha vindo a seguir, desde os anos 30, de não intervir nas Forças Armadas deixando tal responsabilidade para os Altos Chefes militares, opta por jogar em 4 tabuleiros antevendo que o modelo político requereria urgente reformulação, sendo o principal  intérprete um dos seguintes: Spínola, C.Gomes, Adriano Moreira, e o próprio Marcelo Caetano.
Mas a DGS/PIDE não imaginaria que uma reedição do modelo de 16 de Março pudesse vir a ser tentada de novo, porém de forma mais cuidada.
E, ao assistir ao desenvolvimento da sublevação militar, seguramente terá pensado que se trataria de um movimento controlado por um daqueles Generais, daquela vez com um melhor tipo de preparação.
Nunca terá pensado, no seu quadro de raciocínio habitual, que uma repressão de manifestantes a tiro iria desencadear uma vaga de protestos populares, "protegida" que estaria por um daqueles dois Generais em quem confiava, na sequência da colaboração que em África mantinha com as Forças Armadas.
Esperou calmamente pelos novos "Senhores do Poder", dos quais o mais conhecido se apressou a nomear - de entre os Inspectores da DGS/PIDE - um novo Director-Geral (enquanto se desencadeava a simbólica libertação dos presos em Caxias, impulsionada pela indignação popular provocada pelas referidas mortes de manifestantes frente à Sede, e tendo assim que se conformar com a decisão de se colocar todo o seu pessoal no lugar mais seguro que a sua imaginação poderia abranger...).

20.Junho.2021.