"Ponto de vista": Um Pacto. E o espírito europeu ?


Desde Março do corrente ano que um grupo de europeus e de Fundações com sede na União Europeia tem vindo a reflectir sobre a necessidade de se formular um "Novo Pacto para a Europa", na sequência de múltiplos debates e encontros que se desenrolariam de acordo com um programa que será apresentado publicamente muito em breve (entre outros meios de difusão, em www.newpactforeurope.eu ).
Já foram identificadas por aquele grupo de entidades 5 opções possíveis para debate (admitindo-se evidentemente que possam surgir outras), e que vão desde a retracção para uma "União mínima" até às perspectivas ambiciosas de um plena União consolidada.

Parece-me, porém, que algo falta de essencial na discussão do que somos e do que podemos vir a querer ser, e a que já me tenho referido em "pontos de vista" publicados nestas net-páginas: trata-se de chegarmos a um consenso sobre o que se poderá definir como o "espírito europeu", sem o que qualquer debate enfermará do elemento agregador que caracteriza a Europa.

É que, tal como mencionei anteriormente, não foi por acaso que os primeiros Encontros Internacionais de Genebra, realizados em 1946 quando ainda estavam quentes as cinzas do terrível conflito que marcou o início de uma nova era mundial, foram precisamente dedicados ao tema do "Espírito Europeu", vindo a influenciar os passos que pouco depois se deram e estiveram na origem de instituições europeias que - na minha interpretação - procuravam assumir um papel que corrigindo as perspectivas colonizadoras que tinham caracterizado até então a intervenção de diversas nações europeias no mundo procurasse ao mesmo tempo demonstrar a nobreza de um pensamento que afirmasse os princípios da democracia e da igualdade. 
Porém as diversas formas de que se foi revestindo a cooperação comunitária que viria a dar origem ao que agora se designa por União Europeia terão perdido grande parte do fio condutor do pensamento algo idealista que caracterizou a tentativa de definição de tal espírito, o que por certo contribuiu para uma formatação em que os aspectos de mercado passaram a ser determinantes para a construção de uma unidade europeia, a que se agregaram as naturais dificuldades decorrentes das imigrações de culturas mediterrânicas e da falta de debate aprofundado sobre tal situação.

Acresce uma ausência de reflexão sobre o funcionamento dos sistemas políticos, dado o crescente distanciamento em diversos Estados-membros entre eleitores e eleitos que levam a que a delegação política seja sentida como insuficiente face à necessidade de participação local, em sociedades que cada vez recebem mais e melhor informação.

Sem uma reflexão séria sobre o que pode ser considerado como um "novo espírito europeu" as opções possíveis para o novo pacto na União arriscam-se a cair por falta de adequado sentimento agregador.

Tal reflexão deve constituir elemento prévio de ponderação em todos os debates, pois sem ela a União Europeia poderá ser uma jangada, mas nunca será um navio.

29.12.2013.