"Ponto de vista": Eleições europeias - perplexidades.
Não parece fácil o papel dos candidatos a deputados nas próximas eleições para o Parlamento Europeu.
Se em diversos estados-membros há sondagens que apontam para o reforço dos movimentos políticos de natureza euro-céptica que por diferentes razões chegam a advogar o final da União, já em Portugal a situação parece ser diferente, pois a opinião pública sabe que há duas instituições da União Europeia entre as três que prestam auxílio de natureza financeira em Portugal, argumento que não tem sido usado para defender uma saída da União, nem sequer da - já mais discutida - eventualidade do abandono do Euro.
Por outro lado, não são suficientemente conhecidos os poderes do Parlamento, entretanto aumentados pelo complexo Tratado de Lisboa, e o quadro da actual situação financeira e económica de Portugal aponta para uma maior preocupação dos cidadãos com esta circunstância e não com os meios de maior intervenção na condução da política europeia, no controlo sobre as despesas da UE (em que as de assistência financeira, quer em caso de um segundo resgate ou no de um programa "cautelar", passam ao lado da intervenção parlamentar, e as do orçamento plurianual já estão decididas).
Também a influência das eleições na escolha do novo Presidente da Comissão Europeia deixará indiferentes os cidadãos portugueses, face ao limitado papel do actual durante o mandato que ora termina, e o ténue aumento das responsabilidades parlamentares em matéria de direitos dos cidadãos - como a necessidade de um milhão de assinaturas para a apresentação de propostas legislativas - não parece ser de molde a suscitar o entusiasmo eleitoral.
Assim, um candidato a deputado, ou o partido a que pertence, pensará duas vezes antes de iniciar uma campanha pelo não regresso a Portugal da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu (através do Mecanismo de Estabilização Financeira), após o termo, também em Maio, do programa de assistência em que tais entidades participaram, pois a decisão sobre tal hipótese ou sobre a não adopção de resgate ou de "cautelar" não será provavelmente conhecida tão cedo.
E ver-se-à embaraçado quanto à escolha de temas alternativos para a sua campanha, pois o que mais preocupará os eleitores não deixará de ser a ligação entre os sistemas de apoio financeiro ao nosso país e a eventual presença daquelas Instituições da União. E não pode ou não deve cair na armadilha de uma promessa fácil em que deixará de haver "austeridade", nem argumentar que os sacrifícios serão mais justamente repartidos, pois tal não caberá nas suas possibilidades enquanto deputado.
O cidadão, por seu turno, interrogar-se-á sobre os efeitos do seu voto, mais preocupado em saber se poderá ter efeitos na possível determinação da fórmula de assistência financeira que não deixará de ocorrer - mesmo sem programa "cautelar" - do que com os resultados da eleição face ao que observou no decorrer do mandato que termina em meados do corrente ano.
Resultado provável: uma abstenção histórica.
2.Fevereiro.2014.