"Ponto de vista": Abril de 1974 - memória e História.

Abril de 1974 - memória e História.

O episódio do cerco e ocupação da sede da DGS/PIDE, ocorrido entre 25 e 26 de Abril de 1974, voltou a estar na ribalta de alguns meios de informação pública, apresentando diversas versões para o ocorrido, das quais ressaltam duas que diferem em alguns pontos.

Segundo uma delas, que já tinha vindo a ser difundida anteriormente, a entrada no edifício teria sido encabeçada pelo então Major de Cavalaria Carlos de Campos Andrada, que teria  sido nomeado pelo então General António de Spínola, no Posto de Comando da Pontinha, para o cargo de "comandante de todas as forças militares para a ocupação da PIDE/DGS" (Visão-História, pg.83, citando um seu artigo publicado no "Público" em Abril de 1994), tendo nessas funções e durante o cerco ao edifício sido contactado pelo então inspector superior Coelho Dias, que recebera "instruções directas do director-geral da PIDE, major Silva Pais" para ir ao seu encontro e o informar que a chefia da PIDE se rendia (conforme referido no citado artigo no "Púbico"), tendo-se então dirigido ao edifício respectivo ,  onde - antes de entrar - o autor destas net-páginas, que então chegava ao local, "vindo do Largo de Camões, onde comandava uma companhia de fuzileiros com a ordem de a pôr" (ibidem) sob o seu comando, lhe terá solicitado que o pudesse acompanhar "naquilo que seria o facto histórico da rendição da polícia política" (ibidem).

Ainda segundo a mesma versão, o director da polícia política, Silva Pais, disse-lhe então que "se rendia ao MFA", tendo-lhe perguntado depois "se deveriam retirar da parede os três quadros dos seus chefes: Salazar, Américo Thomaz e Marcello Caetano" (ibidem), o que os inspectores presentes de imediato se propuseram fazer.

A revista "Visão-História" apresenta também no mesmo excelente documento de Paulo Chitas sobre a queda da DGS/PIDE não só o essencial de tal artigo mas também dá a conhecer uma versão diferente, baseada em entrevista com o autor das presentes linhas, segundo a qual a "rendição" foi obtida através de um agente, José L.P.Costa Azevedo, que tinha sido capturado quando tentava sair do perímetro de cerco da sede da polícia política, e que incumbi de tal missão de contacto no início da manhã de 26 de Abril.

O facto é que passaram muitos anos sobre os acontecimentos ocorridos naqueles dias, e não só a respectiva intensidade não permitiu que fossem elaborados relatórios minuciosos como também a curiosidade dos meios de informação pública não incidiu muito sobre os pormenores da ocupação da sede da DGS/PIDE, nem sobre quem foram os respectivos protagonistas mais em evidência.

Em meu entender, não assume muita relevância a identificação dos principais responsáveis, mas sim a constatação do que provavelmente terá ocorrido no quadro das posições antagónicas sobre o futuro da polícia política, e que vieram logo à tona através da existência do que poderia designar como "operações paralelas": uma, encabeçada pelo então General A.Spínola, que pretenderia a continuação de uma polícia de informação assente em parte apreciável dos quadros existentes, nomeadamente nas colónias; outra, que não aceitaria uma continuação da estrutura existente, mesmo que disfarçada pelo afastamento de notórios torcionários.

Ambas, com origem no Posto de Comando da Pontinha, onde por um lado o General A.Spínola já tinha chegado e começara a proceder a nomeações, e por outro, quiçá separados por poucos metros, alguns dos Oficiais que tinham constituído o cerne da conspiração tentavam evitar que a até então ainda intocada DGS/PIDE continuasse a subsistir.

Pelo meu lado, apenas recebi instruções do Comandante Carlos de Almada Contreiras.

E, atónito - ou talvez não - recebi no final da tarde do dia 26 uma credencial assinada pelo então General A.Spínola nomeando para o cargo de Director-Geral de Segurança o Inspector Superior Coelho Dias.

Tal intenção foi obviamente neutralizada, como não poderia deixar de ser, ao contrário do que talvez viesse a suceder se outros protagonistas tivessem tomado tais assuntos entre mãos.

Tenho tido o cuidado, quando me interrogam sobre pormenores daqueles tempos, de acentuar que a minha memória se concentra mais sobre as questões mais importantes, e não sobre quem comandou quem e como; mas acabo de verificar, em recente troca de impressões com um dos oficiais que comigo subiu a escadaria de acesso ao gabinete do director-geral da DGS/PIDE, naquela manhã do dia 26 de Abril, que o que recorda de tal dia coincide em muito com o que tenho afirmado.

O importante, reafirmo, é que a polícia política tenha sido neutralizada e impedida de renascer disfarçada.

16.Março.2014.