"Ponto de vista": Conacri - a operação "Mar verde".("Semimórias")

        Conacri - a operação "Mar verde".
         ("Semimórias")

A operação "Mar Verde", realizada em 22 de Novembro de 1970, visava libertar os quase 30 militares portugueses aprisionados em Conacri, destruir os meios navais e aéreos da República da Guiné e os principais meios navais do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), prender se possível o seu Secretário-Geral - Amílcar Cabral, "eliminar" o Presidente Sekou Touré, e colocar no Poder político um conjunto de oposicionistas guineenses.

Muito foi publicado sobre este assunto, tendo os primeiros relatos começado a vir a lume logo após o golpe militar de 25 de Abril de 1974 - mesmo pela pena do Comandante Guilherme Alpoim Calvão,  responsável pela Força Naval que concretizou a citada operação, e reconhecido autor principal da respectiva concepção

No âmbito daquela operação militar-naval foi atribuída ao navio que eu então comandava - a Lancha de Desembarque Grande (LDG) "Montante" - a  missão de desembarcar parte da Companhia de Comandos "Africanos" (como se no léxico do regime político então vigente pudesse haver militares "europeus" e "africanos"...), bem como elementos da "Front de Libération National de la Guiné - FLNG" que teriam a seu cargo algumas acções militares e a ocupação do Poder Político - esta por relevantes opositores a Sekou Touré.

Julgo ser suficientemente conhecido o facto de, ao abrigo do então disposto na Ordenança do Serviço Naval, ter exposto com lealdade ao Comandante da Força Naval, na reunião dos Comandantes das Unidades Navais preparatória da Operação, as minhas opiniões sobre os respectivos riscos no plano internacional, mesmo em caso de sucesso integral, salvaguardando porém o mérito da libertação dos prisioneiros portugueses, opiniões que não foram objecto de qualquer comentário, mas apenas da pergunta sobre se, dada a minha exposição, eu participaria, ao que respondi afirmativamente (tendo posteriormente aquele Comandante feito referências elogiosas ao respectivo cumprimento).

Sobre esta reunião, e porque já circularam outras versões, perguntei há algum tempo ao Almirante Arnaldo Aguiar de Jesus - então Comandante da LDG "Bombarda", também participante na operação - se confirmava o que citei, o que com clareza reiterou.

Clareza que igualmente usou ao confirmar no respectivo "Diário Náutico" - tal como o fiz - a rota para o porto de Conacri, e que pode ser consultado no Arquivo Histórico da Marinha - o que curiosamente não sucede relativamente ao da LDG Montante (talvez porque eu nele tenha escrito que cerca das 01.30 do dia 22 o navio tinha abicado ao cais do Yacht Club tendo desembarcado "o Coronel Thierno Diallo, o Comandante Hassan Assad, e o Jornalista Siradiou Diallo, "candidatos ao Poder").

Ainda antes da largada para a operação os oficiais da referida  Companhia de Comandos pediram-me autorização para se reunirem, o que obviamente autorizei tendo-lhes para tal efeito cedido o uso da câmara, enquanto aproveitava para no exterior conversar com as referidas personalidades guineenses, apercebendo-me desde logo de algumas dúvidas que tinham relativamente ao modo como ocorrera o recrutamento dos guineenses e respectiva capacidade militar, o que viria a ser expresso no relatório do Coronel Diallo, publicado por sua
filha Bilguissa.

A reunião dos Oficiais Comandos não terá aparentemente sido apenas preparatória da execução da operação, pois no exterior ouviam-se altercações, pelo que em posteriores trocas informais de impressões com pessoal da Companhia julguei perceber que as convicções de alguns sobre os objectivos da operação não seriam muito sólidas, neles se incluindo um ou outro que tinham dúvidas sobre se os portugueses estavam firmemente dispostos a apostar tudo na continuação na luta armada e no modelo político existente na sua terra.

Sobre os aspectos militares do decorrer da operação há abundante informação, pelo que me limitarei a focar que - tal como refere o então Inspector-Adjunto da DGS/PIDE António Fragoso Allas no excelente livro da Professora María José Tíscar "A PIDE no xadrez africano" - a DGS/PIDE tinha poucos efectivos e informadores à sua disposição na "Província da Guiné" e países limítrofes, estando muito mal organizada, pelo que o então Inspector Matos Rodrigues, seu antecessor e responsável pelas medíocres - quando não erradas - informações usadas para a concretização da Operação Mar Verde, viria a ser, na sequência do semi-fracasso desta, afastado das suas funções.

A viagem de regresso a Bissau decorreu sob um ambiente taciturno, tanto entre o pessoal da Companhia de Comandos como no da FLNG, e não poderia deixar de haver trocas de impressões entre o pessoal da Companhia de Comandos e a guarnição do navio - sem cuja dedicação e pundonor não teria sido realizável o conjunto de acções que fora programado - ficando presente, tal como me foi referido, a sensação de que tanto na Companhia como entre a FNLG havia grande preocupação com o futuro, tal como seria de esperar.

Aproveitando o relativamente longo tempo de percurso, Thierno Diallo, Hassan Assad, e Siradiou Diallo trocaram diversas impressões com o Oficial Imediato (o então 2º Tenente Raul Vieira Pita, notável e excelente Oficial), com o Oficial-médico embarcado (Dr.Vasconcelos) e, mais longamente, comigo,

Confidências amarguradas, como seria de esperar, sobre o decorrer da operação, ressaltando fortes críticas às sérias deficiências do sistema de comunicações que fora colocado à sua disposição, e que teriam provocado o seu rápido regresso a  bordo a fim de procurar obter informações (conforme viria a constar do relatório do Coronel Diallo), e das quais dei conta oficialmente.

Tive então a oportunidade de conhecer melhor aqueles três cidadãos guineenses, e de saber da existência de outras personalidades relevantes no meio oposicionista a Sekou Toré, nomeadamente David Soumah, e da rivalidade entre elas, constatando igualmente a inteligência política de Hassan Assad e de Siradiou Diallo (então Jornalista da "Jeune Afrique"), que o Coronel Diallo considerava ser o "seu Kissinger" e que apesar de durante vários anos não reconhecer que tinha participado na "Mar Verde" viria a ser por duas vezes candidato presidencial, nos anos 90.

No que respeitava a Hassan Assad, que seria o Primeiro-Ministro caso o golpe militar resultasse, e que aparentava ter elevada capacidade para tais funções, fiquei a saber que tinha dupla nacionalidade - libanesa e guineense - sendo porém um mistério a sua ligação ao FNLG e à operação Mar Verde, que me pareceu ter sido patrocinada por Siradiou Diallo.

Mistério que não consegui decifrar quando Hassan Assad me convidou para jantar em sua casa, em Paris, em 1972, aproveitando uma deslocação minha a França, e durante o qual me transmitiu uma visão pragmática da situação naquelas duas Guinés, demonstrando por um lado grande decepção pela fraca qualidade da oposição ao brutal regime de Sekou Touré, e, por outro, grande cepticismo sobre a capacidade de Portugal manter o domínio sobre a sua colónia, acentuando igualmente que caso tivesse obtido o poder político lhe seria mesmo assim difícil reduzir a presença do PAIGC no seu país.

A terminar, não quero deixar de salientar a cegueira dos principais dirigentes portugueses que nomeadamente a partir do episódio de Dadrá e Nagar-Aveli (1954) não compreenderam que o mundo tinha mudado radicalmente, e que Portugal deveria ter oportunamente adoptado as talvez ainda possíveis medidas de democratização em todos os seus territórios de então - e não apenas no europeu - que possivelmente teriam levado a uma evolução totalmente diferente, sem episódios como o ocorrido em Dezembro de 1961 - e tantos outros que ocorreram depois.

15.Julho.2018.
(Revisto em Agosto de 2019 e em Julho de 2020).