Guerra na Ucrânia: "Acordos de Mirsk" (não "de Minsk"...)

 Os "Acordos de Mirsk

Pouco se tem falado das possíveis razões que terão conduzido V.Putin a pensar que a inclassificável (recordemos os compromissos do Memorando de Budapeste) agressão à Ucrânia seria um breve passeio militar cujo resultado se traduziria numa rápida rendição.   

Pensamento corroborado pela estruturacão da ofensiva inicial, em que a ocupação de Kiev parecia ser um dos principais objectivos - logica e possivelmente o mais relevante.

O facto de tal resultado inicial não ter ocorrido, devido à resistência e à estratégia do Exército ucraniano, aliadas à circunstância de não ter havido a adesão popular que V.Putin esperava, deverá ter causado uma profunda decepção em alguém cuja  carreira tinha começado - e continuado - em serviços de informação e espionagem.

Verificando que os seus serviços de informação não lhe tinham apresentado um relato consistente com a situação real (o que muitas vezes ocorre em regimes autoritários, em que são apresentadas conclusões mais próximas das que se admite seriam as desejadas pelos decisores), deve ter ficado exasperado e, provavelmente, procedido a muitas demissões, aumentadas posteriormente quando constatou que o auxílio militar externo à Ucrãnia superava largamente o que teria pensado que poderia ser prestado.

Tendo porém conseguido, após os recuos em Kiev e Kharkiv, os "objectivos  mínimos" (Donbass, Mariupol, Criméia, Zaporizhnzhya, e Kherson), cedendo entretanto na questão dos cereais e em trocas de prisioneiros, fica surpreendido pelo facto de os seus serviços de informações - agora incluindo os militares - não terem previsto  contra-ataques ucranianos de apreciável dimensão e as consequentes retiradas "estratégicas".

Então, consciente da falta de recursos para manter o que conquistou, e muito menos para ir mais além, ordena a apresentação de 300 mil cidadãos para adestramento militar, e - reconhecendo que novas forças militares não se constituem rapidamente, e que diverso material bélico começa a escassear - recorre a armamento exterior de fácil uso (drones) para iniciar uma nova estratégia, dirigida especialmente contra a população, que cinicamente afirma respeitar muito !

Esquecendo que os russos, tendo sido capazes de grandes sacrifícios para se defenderem em diversas invasões, poderão não o fazer de tão bom-grado quando se trate de intervenções noutros países, como sucedeu no Afganistão (e não o foi na Síria por se tratar de um envolvimento de militares profissionais).

 Daí que tenha agora sido necessário o recurso à ameaça de prisão para quem se oponha ao recrutamento, ou à morte para quem desertar ou recuar sem combater.

Nota-se assim que V.Putin passou a mudar de tácticas em função das circunstâncias, e que verificou que com os recursos de que dispõe, e os que calcula que ainda pode usar, o objectivo inicial de uma Ucrânia sob controle russo está longe de poder ser atingido.

A não ser que...

... a "união" Europeia - esquecendo a necessidade de se mostrar aos cidadãos o estado em que ficariam caso a guerra ocorresse nas suas casas, recue no seu apoio à Ucrânia sucumbindo à hipótese da redução do seu nível de vida, e em que os sacrifícios dos europeus não sejam repartidos tendo presente a necessidade de proteção dos mais desfavorecidos.

... e que os Estados "unidos" da América deixem de estar tão unidos após as eleições de 8 de Novembro.

Assim, a única solução que de momento parece possível é a que decorreria do que eu apelidaria de "Acordos de Mirsk" (sim, Mirsk existe: é polaca, e talvez apreciasse ficar na História), em que as novas "repúblicas" de Lugansk e Donetsk, bem como uma novel "república" da Crimeia,  constituiriam, com a  Ucrânia,  uma União Federal Ucraniana.

Haveria assim cedências mútuas, embora a nova situação pudesse ser considerada como uma meia-derrota - tanto russa, como ucraniana.

Porém esta perspectiva parece pouco passível de ocorrer.

Assim, caso a Ucrânia consiga resistir durante bastante tempo (com um aumento ainda maior da sua capacidade bélica, em quantidade e qualidade, e resistindo à enorme perda de vidas provocada nomeadamente por possíveis "desdrenizações" parciais, por falta de água, energia, alimentos, hospitais, destruição de vias de comunicação e de estruturas internéticas, e outras formas de ataque), um provável golpe de Estado surgirá num dos conflituantes - o russo, por não conseguir vencer, ou o ucraniano, para evitar a aniquilação - em que qualquer deles ficará psicologicamente muito diminuído, até porque não terá alternativas.

Golpe de Estado cujo pendor no caso da Federação Russa seria de dificil previsão, e de eventuais sombrias consequências internas.

E quanto a usos de armas niucleares, no caso de não se conseguir nenhum Acordo?

Cenário inadmissível, pois podem detonar uma escalada susceptível de apagar a vida em quase todo o mundo - pelo que as presentes linhas não têm em tal caso razão para existirem...

Entretanto, volto a referir a necessidade de os europeus reconstituirem a "in illo tempore" Comunidade Europeia de Defesa, tal como sugeri em artigo anterior nesta mesma publicação.

A Europa tem que deixar de ser na NATO/OTAN um "pau mandado" ao serviço dos EUA - embora sempre grata pelo inestimável e grande apoio que nos  prestou na década de 40.

Luís Costa Correia.

7. Nov.2022

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